sábado, 27 de abril de 2019

FILOSOFIA E SOCIOLIOGIA SIM, SR. PRESIDENTE!


Brasileira, patriota, filósofa nata que sou calei-me até agora sem dar o meu pitaco, em respeito à democracia e a decisão das urnas, mas, ontem, duas falas coraram-me a face de reprovação e incredulidade. 
Primeira: O presidente do Brasil suspende a criativa propaganda do Banco do Brasil, que munida de inteligência atraia o público jovem brasileiro e de todo o mundo. Afirmou o Presidente que nenhuma estatal poderia pronunciar-se sem que passasse pelo seu crivo e consentimento. Desconheceu, assim artigo 5º parágrafo inciso IX da nossa Constituição que versa: - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; Volta atrás logo após pois sempre fala antes para refletir depois. ok. O diretor de Marketing do BB perdeu o cargo. 

Segundo: Sua excelência propõe tirar verbas dos cursos de Sociologia e Filosofia alegando: que - "A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e em sua volta." Ora, os cursos profissionalizantes já existem embora escasso e sem verbas para o seu aperfeiçoamento.
Mexeu em filosofia, pisou no meu calo.

Era o ano de 1970, lembro-me exatamente quando a professora Helena dos Anjos, mestra competente e respeitada da Faculdade de Filosofia de Itabuna. Hoje Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC., adentrou a  sala para sua primeira aula de  filosofia . Pausadamente, mirando toda a classe, encolhida e amedrontada lançou a pergunta mais boba que alguém, ao meu ver, poderia fazer: -O NADA EXISTE?
 A sala, erguei em sobressalto, uníssona respondeu: - Claro que o nada não existe. Ao que ela com um sorriso sem reprovação rebateu: - Ao se negar a existência do nada o nada passa a existir. Mandou  a segunda: -O mundo existe porque existimos ou existe por si mesmo? (Entrávamos naquele instante na ilimitada fase dos porquês, dos para que, quem sou, de onde vim, para onde vou o que faço neste planeta tão maltratado?)
Percebemos imediatamente que não seria fácil responder à lendária Helena dos Anjos. Durante quatro anos estudamos filosofia, teologia, lógica, da matemática, sociologia e muitas outras matérias que nos levavam ao questionamento buscando entender a realidade a partir da razão. 
FILOSOFIA - amor à sabedoria, originária na Grécia muitos séculos antes de Cristo.
Passeamos pela vida dos grandes filósofos, sociólogos e pensadores, como Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Sócrates até os gênios da atualidade. Pergunto: Como pode em pleno século 21 alguém desconhecer o verdadeiro sentido e utilidade da FILOSOFIA tirando-a dos currículos escolares separando-a das ciências exatas?  Platão já afirmava: que todo filósofo deveria saber matemática obtendo assim a elevação da mente estudando o mundo abstrato.
Poderia citar inúmeros filósofos, pensadores, teólogos e sociólogos a partir do século VII .aC. Lembrarei aqui apenas 5 gênios da filosofia:
1- Platão filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas. Valorizava os métodos de debate e conversação como formas de alcançar o conhecimento, superando os problemas impostos pela vida oferecendo aos alunos  aulas de retórica, debates, educação musical, geometria e astronomia. Defendia que a educação da mulher deveria ser a mesma dos homens.
2 - Galileu Galileu, pensador Italiano, aliou filosofia, matemática, física, astronomia. Nas ciências exatas elaborou a Lei da Mecânica Celeste descobrindo os anéis de Saturno.
3- René Descartes,  teve na sua corrente filosófica o racionalismo. O raciocínio funciona como exercício mental lógico partindo da hipótese para chegar a conclusão. Fundiu a álgebra à geometria analítica que é a base engenharia.
4 - Pascoal, (1623-1662) filósofo e físico francês, criador da Teoria das Probabilidades e da máquina aritmética. No campo da física estudou o som, pressão e mecânica. Na matemática fundamentou a geometria e a probabilidade - 5 -Tales de Mileto 623 ou 624 a.C. um dos sete sábios da Grécia, pensador, físico, matemático, engenheiro, homem de negócios e astrônomo. 
Criou o famoso teorema de Tales.

Retornando ao ano de 1970 entrávamos na terceira revolução industrial sendo a Cibernética um dos temas mais estudados porque com o surgimento dos gigantes computadores teríamos que nos preparar para o novo século e o novo milênio que já despontava com os seus robôs inteligentes.
Hoje, vivemos a “quarta revolução industrial.”
A inteligência artificial, queiramos ou não, irá substituir o trabalho físico e até intelectual mas jamais substituirá a mente pensadora e criativa do homem. E se um dia avançarem sobre nós basta desligar os botões e as tomadas pois  temos o poder e continuamos a ser a mais perfeita criação do universo.

Afinal não são as mentes inquietantes, absortas, contemplativas, questionadoras que descobriram a Lei da Gravidade, Teoria da Relatividade, teoria do Big Bang, existência dos BURACOS Negros, da Física Quântica ainda que tais teorias não tenham respostas comprobatórias?
Segundo a atual professora, e socióloga: Marilda de Souza. “ O que diferencia nós, humanos, é justamente nossa capacidade de pensar, de ter pensamento abstrato mais profundo, pensamento sistêmico. A filosofia nunca foi tão urgente quanto nos tempos de hoje”. “Já a sociologia, é importante para entender a nova sociedade que está emergindo.” “Professores de Matemática ou Filosofia precisam compartilhar da mesma linguagem, para que o aluno possa perceber, desde os anos iniciais, que tomar uma decisão na vida tem o mesmo processo que tomar uma decisão na hora de resolver um problema matemático."

Podemos ainda não ter certeza pois navegamos no mundo das possibilidades, das probabilidades, das cordas vibrantes, tridimensionais ou oscilantes, mas, de uma coisa eu tenho certeza absoluta:
se o presidente dos Estados Unidos Tramp, o nosso presidente e filhos, alguns membros do STF e muitas outras autoridades do Brasil e de todo o Planeta, tivessem tido a oportunidade de ter estudado filosofia e sociologia desde o primário, pensariam antes de soltar as pérolas amorfas e mortas e, assim, não precisariam pedir desculpas ou voltar atrás em suas impensadas decisões. Ninguém é obrigado a saber de tudo mas deve acercar-se de mentes capacitadas em todas as esferas profissionais. e só assim - SÓ ABRIRIAM A BOCA QUANDO TIVESSEM CERTEZA  E CONVICÇÃO ABSOLUTA. 

Termino aqui o meu pitaco com um pequeno trecho de Castro Alves extraído do seu  brilhante poema O LIVRO E A AMÉRICA. É um grito de socorro que continua ecoando em nossos ouvidos dois séculos depois como se profetizasse a decadência do maior país da América do Sul. Acorda Brasil!

"Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

Rio, 27 de abril de 2019.
Jailda Galvão Aires

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

ALFEU AMARAL- A NOSSA SAUDADE.



Acabei de ler, no FACE, postado pelo jornalista Paulo Santana, a triste notícia do falecimento de Alfeu Amaral. 
Deixei Coaraci no dia 15 de fevereiro de 1975. Casei com o conterrâneo Antonio Carlos Aires e logo viajamos para o Rio aonde residimos até hoje.
 Vivi em Coaraci toda a minha juventude repleta de alegrias, conquistas, adentrando todas as portas que se abriram, na época, para as crianças, para os jovens e os adultos. Foram 27 anos bem vividos nesta inesquecível Terra do Sol. 
Hoje ao ler a notícia que o nosso irmão Alfeu está entre as estrelas declamando seus versos, não pude deixar de falar um pouco sobre ele – um personagem que conquistou o seu lugar ao sol nesta cidade onde despontam tantas figuras que só enaltecem a nossa querida Terra do Sol. Alfeu foi uma delas.
Onde tivesse um aglomeramento, uma festividade, um acontecimento lá estava Alfeu, com sua máquina fotográfica plasmando os momentos inesquecíveis para que a poeira do tempo não os apague jamais.
Estava nos comícios, nas assembleias, nas posses, nos desfiles do sete de setembro, nas micaretas, nas festas dançantes dos Clubes da cidade, noivados e casamentos, nos enterros e em todas as homenagens religiosas, cívicas ou patrióticas.
Retrato aqui, momentos juvenis testemunhando apenas duas décadas, de convivência  entre os jovens que com sua criatividade, movimentavam esta pequena cidade. Entre a "jovem guarda" estava sempre presente o homenageado de hoje.
Daria um livro se fosse descrever as décadas que se seguiram.
Falo de um tempo em que fizemos peças teatrais no palco do cine Coaraci e clube social, dirigidos pelas inesquecíveis mestras Aline dos Reis, Clonisa e entre tantas outras, a professora Leda Ramos. Enquanto crianças e jovens encenavam no palco, Alfeu entre outros fotógrafos da época, não deixava escapar uma única cena, das quais tenho ainda algumas cuidadosamente guardadas.

Estávamos na década de setenta e com elas vieram os Festivais da Canção, dirigidos por Luiz Marfuz, que também, participou como letrista. Nesta época Alfeu não só participou como criou o slogan que marcaria os festivais. Na foto à cima vemos a genialidade apostada num cacau, símbolo do sul da Bahia, tocando um violão. Assim era Alfeu empreendedor e participativo. O Slogan simbolizou os três festivais que aconteceram com a participação dos jovens Coaracienses e de todas as regiões da Bahia. Momentos em que a cidade fervilhava em torcidas calorosas. Alfeu participou e fotografou tudo.
 Quando o “Arauto,”  jornal que 1969/1970 se fez presente em apenas quatro tiragens, por falta de verbas, lá estava ele fotografando e contribuindo com a propaganda; “ FOTO ALFEU” para que o Arauto circulasse. (Foto acima)
Alfeu quer fosse como alfaiate ou como fotógrafo fazia bem tudo o que se despusesse a fazer porque a sua criatividade jamais fora aprisionada. E assim o foi com as letras com a poesia e como escritor. Uma grande perda para Coaraci que hoje guarda na Biblioteca dos autores conterrâneos mais um nome que enriquece o mundo das letras.
Alfeu, você fotografou a vida do povo coaraciense para que ela mão fosse esquecida pela posteridade, mas nós, coaracienses, onde estivermos, teremos plasmado em nossos corações a figura de uma pessoa que soube viver e enriquecer a vida.
Descanse em paz.
Rio, 15 de fevereiro de 2019.
Jailda Galvão Aires.  

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

UM ADEUS A JINES PEREZ


Vindos de arraias e cidades pequenas aonde à rua era o playground da meninada, ao conhecer o Mirante não hesitamos um só instante em oferecer aos nossos filhos, Leonardo, Junior e André Luiz, a oportunidade de ter, como eu e Antônio Carlos, uma infância repleta de espaço e segurança.

Em 1980, moramos inicialmente no Bloco 1 onde mais tarde nasceu a nossa menina Graciela.

Assim que nos instalamos no apartamento ora alugado, descemos, ao entardecer, para conhecer a maior área de lazer de Copacabana. Começamos pelo Salão de Festas e ali vivenciamos grupos de condôminos jogando dama,      carteado e xadrez intercalados por conversas e sorrisos.

Logo abaixo do salão de festas, mais uma alegria nos encheu a alma. Ali, crianças e jovens acompanhados de seus pais dividiam jogos de bilhar, totó e outros brinquedos para os pequeninos.

(É bom lembrar, que nesta época, os computadores só existiam nos escritórios e o celular que hoje separa os presentes e une, virtualmente, os ausentes; também contribuiu para que as crianças deixassem as alegres e sadias brincadeiras no play).

À nossa frente deparamo-nos com uma quadra esportiva, totalmente iluminada, onde jovens moradores jogavam basquetebol, voleibol ou futebol de salão.

Para participar de qualquer lazer, incluindo a piscina era preciso apresentar uma carteirinha com os nomes dos moradores ou dos visitantes.

Exatamente aqui, entra as figuras inesquecíveis de Jines e Dade. Era o casal mais animado de todo o condomínio conseguindo com o bendito vírus da alegria, contagiar a todos.

Não se pode falar do Mirante sem que se lembre de toda a família, exemplo de moral, honradez, vizinhança, participação e alegria de viver.

Hoje, dedico esta página ao saudoso Jines que resolveu deixar a terra para alegrar o céu.

Quem não se recorda de Jines, alegre, conversador, o Papai Noel das noites natalinas e o elegante padre dos casamentos da roça em todas as Festas Juninas ?!

Ao som da sanfona,  Jines dançava à noite inteira até o raiar do dia. Ninguém tinha pique para acompanhar o mais festeiro dançarino.

Um belo dia, numa manhã de Natal, alguém tocou a porta. Ao abrir lá estava o bonito Papai Noel, magro, elegante, desbarrigado, com aquele sorriso farto nos lábios. Antes que Jines fizesse o ho ho ho, dei-lhe um sinal, corri ao quarto peguei o brinquedo da minha pequena,  que logo foi colocado no saco que trazia às costas. Fechei a porta e a companhia voltou a tocar.  Chamei a Graciela, com três aninhos apenas, e disse-lhe:  "Filha, abre a porta para a mamãe e ela prontamente obedeceu".

Ao dar de cara com o Papai Noel de verdade, ali a sua frente, foi tomada por uma alegre e inesquecível surpresa daquelas que marca para sempre a nossa vida.  A menina irradiou de felicidade e Papai Noel foi alegrar outras crianças!

Como esquecer o Jines se todas as manhãs de sábado, domingo e feriados ele interfonava para os amigos do futebol e do fresco-tênis que desciam ao seu comando.
Confesso que muitas vezes tive que brigar com os papais atletas para que deixassem um espaço para os seus próprios filhos.
Os anos foram passando, a idade foi chegando e os atletas começaram a aposentar as chuteiras. A quadra ficou vazia. Os amigos, pouco a pouco, aconchegaram-se nas cadeiras da piscina onde se alegram até hoje. Jines, como um guerreiro, continuou insistindo até que um dia reconheceu que o futebol acabou e com ele o fresco-tênis.
Jines foi dia a dia entristecendo, aguardando a alegria do natal e as festas juninas. De conversador e festivo recolheu ao seu mundo. 
Não sabemos dizer o que foi mesmo que fez parar Jines
e não podemos também culpar a idade  que pouco a pouco foi aposentando a quadra de futebol.
Só temos uma única certeza: O MIRANTE jamais se esquecerá da grande figura que foi Jines e a sua alegria ressoará como um sino em nossos corações em todas as partidas de futebol, nas noites de Natal e nas alegres Festas Juninas.
Vai em paz, Jines, tendo a certeza que estarás presente para sempre nas festivas lembranças do MIRANTE DE COPACABANA.
Rio, 31/01/2019
Jailda Galvão Aires.