segunda-feira, 22 de junho de 2020

SÃO JOÃO EM ITAMOTINGA

Falar de São João é viajar no túnel do tempo e reviver a minha doce infância, mais bela e festiva que as noites de Natal.
Jayme Galvão começava a preparar o licor de Jenipapo, seis meses antes. Não existia nenhum licor no vilarejo que tivesse melhor sabor.
A compra dos fogos de artifício e a fogueira também ficavam a cargo do meu amado e inesquecível pai. Traques, bombinhas, cobrinhas,chuveirinhos, carrapetas, estrelinhas e pequenos balões.
A preparação da canjica (curau), do mungunzá, das pamonhas, dos pés de moleque e outras iguarias juninas ficavam a cargo de Zildinha, minha doce incomparável mãe.
O quintal virava um dia de festa. Sentados numa esteira em círculo, eu e meus quatro irmãos, vizinhos, ajudantes, primos,  tínhamos que descascar uma montanha de milho e debulhar uma a uma. Mais de 10 cocos eram abertos, ralados e extraído o leite de coco. O milho era processado, manualmente, numa máquina moedora, passado por peneiras e colocado num caldeirão grande. Mamãe, temperava o curau com todos os ingredientes sem esquecer o cravo e a canela. O caldeirão era levado ao fogão e mexido com colher de pau para que não encaroçasse. O abano controlava as brasas que crepitavam em leves fagulhas. Era uma algazarra geral. Minha mãe, lenço lindo na cabeça, conversava sem parar e sorria em seu corpo pequenino, como se fosse a rainha do formigueiro junino. Meu pai ajudava a mexer o caldeirão que ia pouco a pouco engrossando e pesando mais e mais. O ponto final era dado por minha mãe que jamais perdia o corte da canjica.
Todas as iguarias eram preparadas com igual rigor. O sal e o açúcar obedeciam o paladar materno que jamais falhava.
A casa inteira era iluminada pelos aladins e candeeiros rigorosamente lavados para que brilhassem muito mais.
A canjica era despejada em diversas travessas e as pequenas, enviadas aos vizinhos e amigos mais queridos.
A mesa da sala de visita, com toalha de festa era enfeitada com uma mine fogueira azul tendo ao centro um vazo verdejante de arroz plantado dois meses antes. As garrafas de licor eram adornadas com silhuetas de mulheres lindas.
Os pratos com as iguarias eram distribuídos por toda a mesa.
A tão sonhada noite chegava lentamente.
Meu pai ligava o único rádio do arraiá o mais alto que pudesse. Escancarava as janelas e portas que se enchiam para escutar Luiz Gonzaga que abria o fole e cantava:
"A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou
Vamos gente, rapapé nesse salão."
A frente das casas, fogueiras crepitavam em fagulhas que se erguiam ao céu, beijando as estrelas. A fogueira do meu pai era a mais alta, bela e imponente. Do tamanho da sua alegria e da sua coragem.
Todos os anos, os fogos eram comprados na cidade vizinha de Coaraci ou Itabuna. Quando saltava do cavalo meu pai, combinado com minha mãe, escondiam o pacote sobre o guarda-roupa e dizia para os filhos: -Este ano não vai ter fogos. Não encontrei em lugar nenhum. Fingíamos entristecidos sem revelar que o esconderijo já era conhecido pelos filhos e primos.
Itamotinga que não tinha luz elétrica era iluminada pelas fogueiras que jorravam fagulhas
a mercê dos ventos. O arraial era o mais belo do mundo. O céu descia à terra.
A criançada menos favorecida aportava à nossa casa sabendo que todos os anos recebiam pacotinhos de fogos carinhosamente preparados.
Era lindo e emocionante, olhar para as serras que circundavam o lugarejo e ver as pessoas das fazendas vizinhas descendo em fila iluminadas por fifós. Pareciam estrelas cadentes descendo com vestidos novos e camisas estampadas, comprados na única loja do seu Jayme e Dona Zilda. Era um ritual vestir roupas novas de chita e camisas quadriculadas.
Ainda escuto o som das sanfonas e vozes cantando baião, xaxado e forró.
Ainda escuto o som da nossa própria alegria e de todas as pessoas que se visitavam perguntando:
- São João passou por aí?
Meus pais com sorrisos largos respondiam:
- Passou sim. Entrem e venham saborear os pratos à mesa e um cálice de licor de Jenipapo.
O mais lindo de tudo isto é que nossa pequena Itamotinga se unia  e se irmanava no mesmo DNA da alegria.
A lua branca abria um sorriso largo e dançava sem perder o brilho majestoso, enquanto as estrelas desciam e se misturavam com o chuvisco ardente e flamejante das fogueiras acesas.
Na manhã seguinte, toras de madeiras caídas a chão em meio a cinzas e brasas vivas esquentavam a nossa saudade e a certeza que São João dançou e cantou até o amanhecer.
Rio, 22/06/2020 Jailda Galvão Aires. 
 
     

terça-feira, 2 de junho de 2020

PANDEMIA E PANDEMÔNIO

O mundo atravessa, há quatro meses, um momento crucial de pânico, desordem, confusão e desconfiança.

" Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão...

Eu passarinho!"

Passarão com seu ódio, forrado de injustiça.

Com suas panças empanturradas de preconceito e supremacia.

Intitulam-se uma raça superior apoiado num nazismo latente, mascarado.

George, mais um passarinho, jogado ao chão estrangulado.

Num último balbucio rouco: Não consigo respirar.

Estampou o rosto roxo da morte esgotando seu último suspiro.  

Como George, muitos sucumbem no mundo inteiro.

Porque nasceram negros, pobres, marginalizados.

Nos guetos da vida sem oportunidade e sem futuro

São vítimas de balas certeiras com o nome de perdidas.  

 Fardados, robotizados,  matam sem piedade

Humilham, batem, desmancham barracos.

 George simboliza todos os humilhados do mundo.

O passarinho tombou, mas, uma revoada se levantou.

E tomou a terra e clama por igualdade e justiça.

O fogo da revolta se acendeu

Tomou fôlego e atravessou fronteiras

Incendiou o espinheiro da revolta

E gritam por justiça, igualdade e respeito à vida.

O mundo precisa se conscientizar que só existe uma raça.

A raça humana . Vinda da mesma argila do mesmo pó das estrelas

 Ai dos que promulgam leis injustas e redigem medidas maliciosas, 2 para tapear o fraco na justiça, roubar o direito do meu povo explorado, para fazer das viúvas suas vítimas e para roubar dos órfãos. 3 Que fareis no dia do ajuste de contas, da calamidade que vem de longe? A quem ireis procurar como apoio? Onde guardareis vossas riquezas? 4 Tereis de vos curvar como os cativos, ou mortos caireis. Apesar de tudo isso, porém, sua ira não acabou, seu braço continua erguido. 

 

quarta-feira, 13 de maio de 2020

AI DOS QUE CRIAM LEIS INJUSTAS

2 Escutai, ó céus! Atenção, terra, é o SENHOR quem fala: “Filhos fiz crescer e prosperar, mas eles se rebelaram contra mim. 3 O boi entende o seu proprietário, o burro conhece o cocho de seu dono; só Israel não tem conhecimento, só o meu povo não entende!” 4 Ai! Gente pecadora, povo carregado de crimes, geração de malfeitores, filhos degenerados! Abandonaram o SENHOR, desprezaram o Santo de Israel, andaram para trás. 5 Se continuais nessa revolta, podereis ainda levar pancadas? A cabeça toda está doendo, o coração inteiro, magoado. 6 Da sola dos pés até o alto da cabeça não há nada são. É só machucado, vergão, ferida aberta, sem limpar, sem tratar, sem remédio para aliviar. 7 É assim mesmo: vosso país está arrasado, vossas cidades, destruídas pelo fogo, a as terras, bem diante dos vossos olhos, devoradas por estrangeiros. É a devastação, a invasão de inimigos. 8 Jerusalém, a filha de Sião, ficará como um rancho no vinhedo, uma choupana em plantação de pepinos, cidade cercada pelo inimigo. 
17 A maldade como fogo se acendeu, incendiou todo espinheiro e matagal, pôs fogo no mato fechado e subiram rolos de fumaça. 18 Com a ira do SENHOR dos exércitos, incendiou-se a terra, o povo virou lenha deste fogo. Ninguém poupa seu irmão: 19 morde à direita e continua com fome, morde à esquerda e não fica satisfeito, devorando cada um a carne do irmão. 20 Efraim devora Manassés, Manassés devora Efraim e os dois juntos devoram Judá. Apesar de tudo isso, porém sua ira não acabou, seu braço continua erguido. O sétimo “ai” contra os grandes de Judá 10 1 Ai dos que promulgam leis injustas e redigem medidas maliciosas, 2 para tapear o fraco na justiça, roubar o direito do meu povo explorado, para fazer das viúvas suas vítimas e para roubar dos órfãos. 3 Que fareis no dia do ajuste de contas, da calamidade que vem de longe? A quem ireis procurar como apoio? Onde guardareis vossas riquezas? 4 Tereis de vos curvar como os cativos, ou mortos caireis. Apesar de tudo isso, porém, sua ira não acabou, seu braço continua erguido. 

sexta-feira, 8 de maio de 2020

COVID-19 E O CAOS NO MUNDO


Não devemos e nem podemos atirar pedras em ninguém mesmo porque quem atira pedras é quem cultiva britas e avalanches no seu interior. 
Só deveríamos atirar flores cultivadas no jardim da nossa verdadeira essência. Plantamos, regamos  e  colhemos as mais belas e perfumadas espécies.
Jesus disse: “Não julgueis para não serem julgados. Com a mesma balança que pesais vos pesarão a vós e com a mesma medida que medirem vos medirão também.”
Ouvi atentamente o vídeo abaixo repleto de uma beleza imensurável e de uma grandeza que só os seres virtuosos reverberam em sua alma.
Não existem culpados por todas as mazelas que o “covide-19” vem espalhando e vitimando em todo o planeta: Filhos órfãos, desemprego em massa, família dizimadas, pela fome, ou pela falta de leito nos hospitais. 
Os senhores do poder, engessados, procuram soluções embora a ciência não explique porque jovens e crianças sadias sucumbem a esta hecatombe enquanto centenários, jovens sadios, recém-nascidos, e crianças desnutridas, sem anticorpos, conseguem vencer a fúria deste vil tão letal. 
O mundo foi pego de surpresa e não podemos responder a tantas indagações. Porque médicos, enfermeiros munidos de proteção tem sucumbido ante a força desta pandemia?
Voltamos aos céus e perguntamos aonde se esconde Deus nesta hora que aos olhos humanos parece não ser justo em sua infinita bondade?
Quem enviou ou criou este vírus invisível  capaz de paralisar o mundo, desmontar armas nucleares, mexer com a economia, destronar poderosos e deixar os cientistas sem ação? Qual o propósito de tudo isto? 
Correto seria perguntar: "Para que" e não "por que" este caos se alastrou?
Será uma lição ao egoísmo, a ambição, a roubalheira, ao individualismo, a indiferença que se alojou nos corações humanos? Será uma resposta a destruição da natureza, ao efeito estufa, a poluição dos rios e mares que recebem metais pesados na extração de minérios, matando centenas de seres vivos? O desmatamento e as queimadas das florestas em toda a Terra?

Milhares de fugitivos das guerras estão morrendo de fome e frio ou dizimados  pelo vírus nos " campos de concentração" - aonde são jogados e esquecidos.

Perdoem-me se entro em contradição ao afirmar que todos merecem flores. Não. Nem todos as merecem. Os corruptos, os que desviam dinheiro destinados a compra de leitos, medicamentos, respiradores, equipamentos de proteção e respiradores ineficientes confeccionados com o intuito de ganhar dinheiro sujo; toda esta corja merece sim, ser apedrejada em praça pública sem julgamento e sem piedade. Afinal são assassinos da fé e da vida humana. 
Facínoras que escondem as mãos sangrentas nos bolsos dos paletós de linho engomados e, os lucros depositados em bancos muito além das nossas fronteiras.
Que as flores cultivadas nos nossos jardins sejam oferecidas aos verdadeiros heróis – médicos, enfermeiros, coveiros e a toda a equipe hospitalar e aos que dirigem ambulância de um hospital a outro correndo contra o tempo na tentativa de salvar vidas. Aos anônimos que distribuem marmitas aos moradores de ruas e levam gêneros alimentícios nas comunidades carentes. Estes sim merecem como medalhas as flores mais belas e perfumadas da gratidão. Medalhas estas  colocadas sobre o coração dos verdadeiros seres humanos, altruístas, sensíveis, missionários, capazes de dar a vida pelo semelhantes honrando o juramento de Hipócrates: “Eu prometo solenemente consagrar minha vida ao serviço da humanidade; a saúde e o bem-estar de meu paciente serão as minhas primeiras preocupações”
E àqueles que perderam a vida de seus entes queridos revoltados pelo descaso e pela falta de vagas nos hospitais públicos? 
Fica o nosso pedido de desculpas, a nossa solidariedade, nossas lágrimas vertidas sobre  coroas de flores rochas de dor pedindo aos céus que as console e que as reanime sem jamais perder a arma da fé.
Rio, 09/05/202 Jailda Galvão Aires.