Sou fã de carteirinha da Martha Medeiros e devoradora
voraz de suas crônicas.
Em “Detox” ela nos convida a fazer uma faxina geral
em nossa casa física e nos aposentos de nossa alma.
“Limpar é uma atitude que traz consequências
saudáveis. “É uma terapia rápida e de baixo custo: desapegar-se das tralhas a fim de aliviar a rotina”
Reconheço que minha casa e meu eu interior está
repleto de entulhos e lembranças. As minhas
gavetas estão abarrotadas e meu coração já não
consegue bombear tanto sangue devido ao
entupimento das minhas artérias emocionais.
Querida Martha, a minha bagunça vou e posso
procrastinar por mais um pouco porque incomoda unicamente a mim. Verdade que o maridão e os filhos
me cobram um pouco.
Existe, Martha, uma outra casa Gigante, repleta de
tamanha sujeira, cacarecos, entulho, velharias e
velhacarias que incomoda e adoece não só a mim mas a milhares de brasileiros.
Esta casa, que pertence a todos nós, precisa,
urgentemente, não só de uma limpeza física mas também moral, social e política.
Vejo-me munida com aquele balde que você sugeriu,
luvas de borracha, buchas porosas e materiais
pesados de limpeza, removendo as sujeiras inorgânicas
e orgânicas que mofam, aderem, enfeiam e espalham um forte odor de podridão nauseante.
A faxina precisa ser geral e irrestrita.
Não adianta tirar o pó de todos os móveis e deixar que
os mesmos senhores continuem, imponentes, ocupando postos mesas e cadeiras cativas, eleição pós eleição.
redes dos ex-políticos. Arrancar algumas das
imponentes molduras pois não são dignas do
acervo, desenhar em algumas o nariz de Pinóquio
e depois lustrar com óleo de peroba. Esculpir em
outras o famoso bigodinho curto da traição.
- Claro que não seria o bigode do nosso querido e inesquecível Charlie Chaplin!
Sabemos que a corrupção, os desvios e desmandos
não vêm de um só partido.
A epidemia é generalizada e migrou para todas as
legendas. - À salvo poucos políticos que mesmo
embasados dos melhores ideais e compromissos, nada podem e não conseguirão realizar porque são minoria.
Uma minoria que não corrompeu e não foi corrompida, permanece, sofridamente, no estado de inércia.
Não adianta vitimar um bode expiatório porque
sabemos que não temos na hierarquia da Ordem
Sucessória, até o momento, um nome honrado a
substituir ninguém.
A nossa frente desponta um labirinto sem saída.
Estamos cansados de tantos escândalos de tantas
charges criadas nas manchetes de todo o mundo:
Somos o País da Corrupção, do Petrolão, do Lava a
Jato, do Mensalão, dos Delatores, dos Delatados, Das Pedaladas Fiscais, das Propinas, das Lavagem de
Dinheiro, Evasão de Divisas, das Marolas e até das Marolinhas.
Descemos da oitava economia do mundo para a
décima quarta.
Regredimos.Conhecemos a cifra dos bilhões desviados
mas não temos de volta estes mesmos bilhões para
serem justamente empregados em escolas, hospitais, moradia, emprego, reforma agrária, saúde, salários e aposentadorias justas.
Não somos alienados, conhecemos o sacrifício com que pagamos os altos impostos para não termos o mínimo que temos por direito.
Sabe, Martha, as baratinhas e as traças que entram em nossas pequenas casas físicas e mentais jamais serão eliminadas se não forem eliminados para sempre
os focos da "Grande Casa Mãe".
Sei que você, Martha, jamais lerá esta crônica mas
aqueles que chegarem até o fim possivelmente estarão pensando que jamais arrumarei a minha bagunça.
Não sou tão inocente assim. Prometo a mim mesma
que ainda este mês porei em ordem a minha casa. Procrastinação também tem limite.
Rio, 03 de abril de 2016
Jailda Galvão Aires.

Nenhum comentário:
Postar um comentário